São Paulo é conhecida por abrigar lugares interessantes, mas esquecidos pelo tempo. Desativado desde 2002, o equipamento municipal conhecido como Incinerador Vergueiro era utilizado para a queima de resíduos da região do Ipiranga.
Inaugurado em 1968, atualmente o incinerador se tornou alvo de disputas judiciais. O edifício pode se tornar um estacionamento ou virar um espaço de memória e educação ambiental.
Durante os anos em que operou, recebia principalmente resíduos relacionados a lixo hospitalar e, segundo moradores da região, também atuava na queima de resíduos inadequados destinados erroneamente para o equipamento.
Segundo a Câmara Municipal, em seu auge no início dos anos 2000, o equipamento chegou a queimar cerca de 50 toneladas de resíduos por dia. Inclusive, a instalação era alvo de reclamações de vizinhos, que protestavam contra a fumaça, os odores e o intenso trânsito de caminhões pelo local.
As preocupações ambientais também contribuíram para o fechamento do incinerador em 2002. Órgãos como a CETESB e a Prefeitura discutiram, inclusive, a necessidade de investigar o solo do local para avaliar uma descontaminação antes de decidir o que fazer com o terreno.
Porém, até 2021, nem a Prefeitura nem a CETESB registraram estudos que avaliassem uma eventual contaminação na área.
A prática de incineração de resíduos

Popularizada no século XIX, a incineração industrial de resíduos urbanos começou nos fornos de Nottingham, na Inglaterra de 1874. Chamados de “destructors”, eles serviam para eliminar através do fogo o lixo produzido pelas grandes cidades.
Inspirada pelos ingleses, São Paulo adotou a prática no início do século XX. As autoridades escolheram o método como uma solução sanitária para reduzir o volume de lixo e destruir materiais potencialmente perigosos ou contaminados.
Além do imóvel no Ipiranga, São Paulo também teve o Incinerador do Araçá — o primeiro incinerador de lixo do município — e o de Pinheiros.
Apesar de não ser mais tão frequente, atualmente a prática continua sendo uma alternativa de tratamento para determinados resíduos industriais, perigosos e de serviços de saúde.
Porém, a operação atual exige algumas condições de segurança: instalações apropriadas, controle da combustão, tratamento das emissões e destinação adequada das cinzas e demais resíduos.
Segundo as normas da OMS, para os resíduos de saúde utilizam-se hoje incineradores mais modernos, que operam entre 850 °C e 1.100 °C.
E, além disso, são equipados com sistemas que garantem a limpeza de gases e atendem aos padrões internacionais no que tange à emissão de dioxinas e furanos.
O Incinerador Vergueiro e o futuro do imóvel
Com projeto desenvolvido em 1966 pelo escritório alemão Lucks u. Co., o Incinerador Vergueiro tem características da arquitetura industrial, concebido de acordo com sua função na queima de resíduos.
De acordo com estudos acadêmicos, a principal característica da construção é sua chaminé de 90 metros.
Atualmente, a disputa pelo antigo Incinerador Vergueiro resume-se a duas propostas distintas: em novembro de 2025, divulgou-se um plano municipal para demolir o imóvel e implantar a nova sede da Subprefeitura do Ipiranga ou até instalar um estacionamento no local.
Por outro lado, moradores e o movimento Usina Eco-Cultural registraram uma proposta no portal Participe+ sugerindo a reutilização da área. O objetivo é transformar o espaço em palco de atividades culturais e, em diálogo com suas antigas funções, em centro de ações de educação ambiental.
Uma prova de que o local desperta o interesse da população paulistana em relação à memória urbana foi a inclusão do incinerador na Jornada do Patrimônio de agosto de 2026.
Apesar dos planos e propostas para o espaço, sua destinação hoje ainda depende do esclarecimento das condições ambientais da área.