A baixa no nível de água do Sistema Cantareira surpreendeu muita gente. Afinal, o que mais temos visto nestes dias é chuva em São Paulo. Embora pareça contraditório, o fenômeno é mais uma consequência do El Niño 2026, que causa mudanças na circulação global dos ventos.
Embora muitos paulistanos estranhem a seca no Sistema Cantareira, as tempestades recentes alagaram apenas as ruas da capital — e não seus reservatórios. Esse “paradoxo climático” cria uma ilusão de abundância hídrica na cidade, quando, na verdade, os mananciais estão em situação de alerta.

Seca no Cantareira: chove na capital, mas não na bacia do sistema
Muitas pessoas acreditam que a chuva da capital enche as principais represas da metrópole. No entanto, as águas paulistanas correm para as bacias dos rios Tietê e Pinheiros, que abastecem apenas reservatórios da região metropolitana, como Billings e Guarapiranga.
A bacia hidrográfica que capta a água para o Sistema Cantareira fica a dezenas de quilômetros de distância, abrangendo a região bragantina e o sul de Minas Gerais. Assim, para que o nível do Cantareira suba, a chuva precisa cair com volume e constância nessas áreas, e não em São Paulo.
O Cantareira é o maior dos sistemas da Sabesp, responsável por abastecer até 58% dos moradores da Grande São Paulo. Por isso, apesar da distância, a estiagem em sua bacia afeta diretamente quem vive na capital.

Por que chove mais em São Paulo, e não na bacia do Cantareira?
A urbanização paulistana atrai boa parte das tempestades de verão. A grande quantidade de prédios e asfalto cria uma “ilha de calor” que superaquece o ar durante o dia. Além disso, a fumaça e a poluição facilitam a condensação de gotas de água no céu. Quando a brisa úmida do oceano encontra esse bolsão de ar quente e poluído, as tempestades caem fortes sobre a Grande São Paulo.
Por outro lado, o interior paulista e o sul mineiro sofrem as consequências do El Niño. O aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico desvia a Zona de Convergência do Atlântico Sul — corredor de umidade da Amazônia que leva chuvas para a região. Dessa forma, os temporais ficam restritos à capital, enquanto o interior enfrenta dias secos e ensolarados que impedem a recuperação do nível do Sistema Cantareira.
