Um navio que afundou em plena Segunda Guerra Mundial na costa de um país aliado, após ser atingido pelas forças da Alemanha nazista. Parece um fato ocorrido em terras estrangeiras ou, quem sabe, a sinopse de um filme de guerra hollywoodiano. No entanto, esse naufrágio está mais próximo do que pensamos: é a história do Tutoya, navio cargueiro brasileiro que repousa no litoral de São Paulo.
Pouco se fala atualmente sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra. No entanto, nossas forças armadas tiveram um papel importante na vitória dos Aliados e o país sofreu, inclusive, ataques do Eixo — composto por Alemanha, Itália e Japão — em território brasileiro.
O Tutoya naufragou em um desses ataques há mais de 80 anos. Desde então, suas ruínas se escondem na costa entre Iguape e Peruíbe, a 21 metros de profundidade, deixando um rastro de memória sob o mar de São Paulo. Conheça agora a inusitada história de um ataque nazista na costa paulista, que deixa marcas no fundo do oceano até os dias atuais.

O trágico destino do Navio Tutoya
O Brasil declarou guerra aos países do Eixo em 1942, enviando tropas para a Europa e sofrendo retaliações dos inimigos. Neste cenário, surgiu o Tutoya: um cargueiro de aço com 67 metros de comprimento e capacidade para transportar mais de mil toneladas de mercadorias essenciais — como café, carne, batata e madeira — entre portos brasileiros.
No dia 1º de julho de 1943, o cargueiro fazia o trajeto entre Paranaguá (PR) e o Porto de Santos quando caiu no radar do submarino alemão U‑513, que patrulhava nosso litoral. Era cerca de uma da manhã e a embarcação brasileira navegava no escuro. Os alemães emitiram, então, sinais de luz em código Morse pedindo que o Tutoya diminuísse a marcha, acendesse as luzes e se identificasse. Os brasileiros acreditaram ser tratar de um navio da patrulha aliada e, inocentemente, obedeceram.
O erro foi fatal: os alemães dispararam um torpedo contra o casco, fazendo com que o navio afundasse em poucos minutos O episódio trágico causou a morte de sete tripulantes, incluindo o comandante. Já os sobreviventes enfrentaram o desafio de alcançar a terra firme em botes salva-vidas.

Expedição revelou o naufrágio no litoral de SP
O paradeiro exato do Tutoya permaneceu desconhecido durante décadas, mas veio à tona no final de 2025. Um grupo de pesquisadores cruzou documentos da Marinha com relatos de pescadores para localizar o navio e, por fim, detectou estruturas metálicas no leito do oceano por meio de um sonar.
Após comparar as medidas da carcaça com os registros técnicos da embarcação, comprovou-se que se tratava realmente do antigo cargueiro brasileiro. Segundo a mergulhadora Tatiana Mello, que participou das buscas, a estrutura segue intacta desde o naufrágio, criando uma espécie de “museu submerso” sobre a Segunda Guerra Mundial.
Além disso, a descoberta se transforma em um símbolo das perdas brasileiras durante o conflito. Embora pouco lembrado hoje em dia, o caso do Tutoya demonstra que São Paulo também foi afetado pela guerra, cujo front passou silenciosamente pelo nosso litoral.